E então você
tem uma filha. Bem pequerruchinha, linda e fofa, que precisa de você pra
absolutamente tudo. Você adora essa situação e paralisa toda a sua vida só pra
cuidar daquela coisinha amada. Mas, volta e meia, sente uma pontadinha de
vontade de que ela cresça rápido e se torne um pouco mais independente. Só que
o rápido acontece muito mais rápido do que você imagina. De repente, você se vê
com rugas, pelancas, toda embarangada e mãe de um ser de 8 anos. E você,
que já achava que estava com a vida ganha agora que sua filha tinha se tornado
uma criança educada, carinhosa, interessada e respeitadora, começa a rever os seus
conceitos e a desconfiar que a primeira etapa da educação do indivíduo, na qual
você foi aprovada com louvor, seja, talvez, a mais fácil de todas. Porque
quando os filhos atingem oito anos, seus métodos educacionais, aparentemente,
são postos a prova. Tudo aquilo que parecia ter funcionado tão bem até então, começa
a não ter validade alguma. Além disso, é nessa idade que as crianças começam a achar
que tem o direito de ter vida própria. Oi, como assim, filho tendo vida
própria? É, eu sei, deveria ser proibido, mas não é e acontece. Devemos estar
preparadas. E quando é chegada essa hora, é preciso repensar, rever as
estratégias, ter muita paciência e estudar tudo mais afundo. E quando eu digo
estudar é estudar mesmo. Vale livro, internet, enciclopédia, qualquer coisa. O
importante é que você tenha um conhecimento mais aprofundado antes de brigar,
pedir, comentar, sugerir ou até elogiar. Porque absolutamente nada vai ser
acatado sem que haja, antes, muita argumentação. Porque aos oito anos, a
sabedoria e a beleza da pessoa (segundo as próprias crianças de oito anos) atingem
seu ápice. E o que os amigos e os personagens dos seriadinhos de TV pensam,
dizem ou fazem é sempre bem mais interessante do que as coisas que os pais têm
pra falar. E é aí que a gente faz de conta que foi acometida da mais terrível
crise de perda de memória recente e fica repetindo os mesmos conselhos, histórias,
previsões e prognósticos assustadores, na esperança de que alguma coisa entre
naquelas cabecinhas que insistem em demonstrar que não estão nem aí praquela
falação toda. E é aí que você se lembra de como sua mãe fazia igualzinho e você
achava a coisa mais chata do mundo, porque você já tinha entendido muito bem o
recado e concordava com ela e achava que ela só podia te achar uma imbecil-desmiolada
pra pensar que um dia você iria fazer coisa parecida ou se tornar algo parecido
com aquela catástrofe que ela anunciava. Mas você acha que a metodologia da encheção
de saco, aplicada por sua mãe, nem te traumatizou tanto assim e talvez até
tenha surtido algum efeito e, na falta de um conhecimento mais aprofundado sobre
a mente dos quase pré-adolescentes, você segue com a mesma técnica. E é nesse
momento que você tem saudades do tempo que suas grandes preocupações eram se
sua filhotinha iria dormir a noite inteira ou iria se comportar bem no restaurante. Mas,
loucamente, você olha praquela menina linda, que, apesar de seus momentos de
rebeldia e deslumbramento, te abraça, te faz massagem, te conta histórias, que
é a sua melhor companhia, que é capaz de falar e fazer tantas coisas legais e que
é tão cheia de bons valores e a saudade fica só na saudade mesmo. Saudade boa e
não saudosismo que entristece. E a expectativa do que vem pela frente, em vez
de assustar, te anima, te enche de perspectivas e te enche de coragem e
entusiasmo. E você se sente o ser mais feliz e privilegiado do mundo por poder
participar tão de perto das descobertas, decepções, questionamentos, rebeldias,
alegrias, da construção, enfim, de uma pessoa.
A Vida Secreta das Mães
EU
- Celina
- doutora em biologia molecular que, após anos de estudo, descobriu, em casa, a coisa mais importante que o DNA pode fazer: um filho
quinta-feira, 10 de maio de 2012
segunda-feira, 30 de abril de 2012
EU ME ACHANDO
Olha eu, me achando toda importante porque estou com post lá no MMqD. E devo me achar mesmo. Aquele lugar é muito legal e especial. Brigada meninas!
quinta-feira, 15 de março de 2012
HÁ UM ANO
No ano passado, o dia nove de março era quarta-feira de cinzas. Saí cedo da cama, ansiosa porque o carnaval tinha acabado e eu poderia fazer as tantas coisas que ainda me restavam fazer para receber o Theo, que deveria nascer em, aproximadamente, vinte dias. Planos interrompidos por um trabalho de parto que se iniciava naquele momento. Algumas horas mais tarde, o filho vem ao mundo, pequerrucho de tudo, mas completamente saudável, trazendo muita, muita felicidade, pois finalmente estava entre nós depois de ser muito desejado e aguardado. Mas como mãe é chegada em um draminha e gosta de achar que só se sentir feliz é muito pouco, resolvi sentir, também, muita preocupação, incerteza e medo. E eu, que, mãe experiente, achava que estaria livre desses sentimentos nefastos no nascimento do meu segundo filho! Afinal de contas, não ia mais existir o sofrimento da mudança de status (de filha para mãe, de recém casada, que tem o trabalho como principal ocupação e não tem hora pra nada para alguém que vai viver em função de outro alguém que, por sua vez, exige regras, rotinas e horários bem definidos). Pois é. O problema é que, quando se trata de filho e maternidade, a gente nunca tem experiência o suficiente. Ter uma pessoinha que depende infinitamente de você nos braços vai ser sempre uma situação nova, feliz e amedrontadora. O pavor do desconhecido, da responsabilidade, da mudança de uma vida que já estava certa, esquematizada e feliz me tomou mais uma vez e eu me encontrei quase tão angustiada e apavorada quanto fiquei depois do nascimento da minha primeira filha. A sorte é que segundo filho parece que já chega dizendo: "ai, quanta besteira! Criar um filho é bem mais fácil e divertido do que você fica aí, imaginando. Me dá amor que tudo vai dar certo." E isso é fácil. Amar um filho é a coisa mais fácil que existe. E muito fácil é, também, deixar que ele entre na nossa vida, tome conta dela e vire tudo de cabeça pra baixo. Fácil é largar emprego, mudar convicções, redefinir objetivos e prioridades, deixar de jantar com o marido e sair com as amigas. E muito mais fácil é se acostumar com a nova situação que a presença de um filho (seja ele primeiro, segundo, terceiro,...) traz e se identificar e amar tanto essa situação que acabamos achando que essa é a única maneira de ser feliz. Tudo isso é, realmente, tão fácil que a gente tem que cuidar pra não deixar tudo, tudinho de lado e viver única e exclusivamente com os filhos e para os filhos. Porque é essa a vontade que temos.
Então, obrigada filho. Obrigada por esse ano maravilhoso em sua companhia. Obrigada por fazer com que eu vivenciasse, mais uma vez, momentos e sentimentos inexplicavelmente bons. E obrigada por permitir que eu aprendesse que eu nunca vou ter vivenciado o suficiente a ponto de não me emocionar profundamente com esses momentos e sentimentos e senti-los com tanta intensidade quanto da primeira vez.
EM UM ANO ...
isso...
virou isso...
REGISTRO PRA POSTERIDADE
Com um ano o Theo:
- tem quatro dentes (dois em cima e dois embaixo)
- come muito bem e de tudo, desde banana até salada de rúcula
- dorme (ou dormia?) muito bem (de uns dez dias pra cá, deu pra chorar por volta das quatro da manhã e acordar de vez em torno das 5:30)
- fala mamãe, papai, Clara, Chiara, luz, pomada e imita cachorro, gato, passarinho, coruja e porquinho. Porém, se você não for da família ou não tiver um membro da família por perto para servir de intérprete, talvez tenha alguma dificuldade de perceber que os sons que saem da sua boca referem-se, de fato, a essas palavras
- adora passear e joga beijos e dá tchauzinho quando alguém pega ele no colo, especialmente se esse alguém for o vovô
- estala a língua quando vê a Dinda e balança a cabeça de um lado pro outro, cantando ah, ah, ah, ah quando vê a Bisa
- adora a irmã e chama por ela várias vezes durante o dia
- engatinha e sobe a escada com uma habilidade impressionante e anda, segurando nas nossas mãos, com uma desabilidade impressionante
- fica muito brabo quando está com sono na hora das refeições
- adora enfiar o cachorrinho de brinquedo na nossa cara pra gente fazer "au, au, au"
- canta e dança de um jeito muito fofo, balançando a cabeça pra um lado e o corpo pro outro
- não gosta de ficar sozinho com pessoas desconhecidas
- fica extremamente revoltado quando a comida acaba antes de acabar sua fome (ou sua gula)
- mexe em tudo que não deve e já quebrou dois objetos de vidro em casa
- adora andar de elevador e ver os números passando no visor. Fala algo muito parecido com "seis", que é o andar do apartamento da vovó, quando está dentro de um
- é feliz, simpático, grande, pesado (10 kg e 77,5cm), cheio de energia e dá muita dor nas costas e muita, muita, muita alegria pra quem está por perto
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
NA INGLATERRA EU...
... viajei muito
... andei muito
... tive uma vida bem mais simples e absolutamente deliciosa
... percebi como, no Brasil, estamos pessimamente mal acostumados com uma violência estúpida, sem sentido e exagerada
... comprovei que, infelizmente, as coisas ruins que muitas vezes pensamos serem exclusivas do nosso país estão bem mais disseminadas do que imaginamos
... estive junto com meu marido e meus filhos e à disposição deles como nunca tinha estado antes e isso me fez sentir feliz, tranquila e realizada como poucas vezes na vida
... descobri (e foi um alívio!) que eu e meu marido não dependemos de muita ajuda externa para dar conta das nossas vidas e das dos nossos filhos. Porém, ainda que não precise, necessariamente, da ajuda das pessoas que tanto me ajudam quando estão por perto, preciso, desesperadamente, da companhia, amizade e carinho delas
... comprovei que minha filha é muito especial, cheia de desprendimento, maturidade e capaz de encarar qualquer desafio com muita coragem e atitude
... descobri que meu filho é um companheirão, de bem com a vida e pronto pra qualquer uma
... passei a admirar ainda mais meu marido. Tenho hoje, mais do que nunca, total consciência de que ele me ajuda muito, facilita muito a minha vida e faz coisas que eu odiaria e, provavelmente, teria muita dificuldade de fazer
... aprendi que ir é ótimo, desde que eu volte sempre.Vidinha tranquila em uma cidadezinha da Inglaterra.
Saudades...
domingo, 1 de janeiro de 2012
A RETOMADA, A SONECA E A MÃE QUE QUERO SER
Nada melhor para o primeiro dia do ano do que um post novo. Ainda mais quando eu já tinha até colocado uma lápide em cima do blog. Considerava ele mortinho. Uma morte precoce, mas já esperada, uma vez que nunca se dedicou a ele muita atenção e cuidado. E partiria do mesmo modo que levou sua breve existência: discretamente, praticamente no anonimato, sem causar grandes comoções. Mas eis que me deu vontade de falar só mais uma coisinha. E eis que a vontade aconteceu justamente quando eu tinha tempo livre. O que é coisa cada vez mais rara, principalmente agora que eu resolvi aproveitar meus poucos momentos livres de uma outra maneira: dormindo.
- Ohhhhhh! Como assim, dormindo?
- Bem assim mesmo.
- Mas dormindo no meio do dia, em hora que não é pra dormir?
- Sim. No meio da manhã, pra ser mais específica.
- E isso é coisa que se faça? Uma mãe, com dois filhos, com casa pra cuidar, com roupa pra lavar e com comida pra fazer?
- Se é coisa que se faça eu não sei, só sei que é coisa que eu faço.
- E não sente vergonha na cara.
- De jeito nenhum. Sentiria até pouco tempo atrás, mas cansei de estar sempre cansada. Decidi que era melhor ser uma mãe que dorme no meio da manhã do que uma mãe que mal se aguenta em pé e chega no final do dia torcendo pra que os filhos e o marido esqueçam da sua existência.
Esse foi o diálogo que tive com a minha consciência assim que decidi por em prática meu projeto de dormidas matinais. Venci a danada e agora sigo assim: continuo fazendo tudo o que fazia: arrumo a casa, lavo louça, guardo louça, ponho roupa na máquina, tiro roupa da máquina, faço almoço, dou banho, tomo banho (muito importante), ajudo no banho, ajudo na lição, pego filha na escola, faço suco, corto fruta, dou lanche na boquinha, canto musiquinha, faço pocotó, aviãozinho, piu-tchá-tchá e bambalalão, brinco de faz de conta, conto historinha, vejo um pedaço do filme, durmo no outro pedaço. A diferença agora é que, depois do agito da manhã, depois que a Clara foi pra escola e o marido foi trabalhar, depois que o Theo mamou, fez cocô, brincou, comeu fruta, fez cocô de novo e começou a ficar chatinho, cheio de sono, pronto pra dar mais uma dormidinha, em vez de colocar ele no berço e sair correndo pra maratona da arrumação, vou junto com ele pra cama. Ficamos um tempo conversando, fazendo carinho um no outro (apesar de eu ainda ter dúvidas se ele quer mesmo me agradar ou quer arrancar metade da minha bochecha, furar meu olho e tirar meu cérebro pelo buraco do nariz) e logo pegamos no sono. E a guardação e lavação, que antes estavam finalizadas as dez horas da manhã, ficam pra depois. E se não der tempo hoje, ficam pra amanhã. E se não der tempo de ler e escrever no blog, fica pra depois de amanhã. Quando acordamos, cerca de uma hora depois, ainda conseguimos brincar mais um pouquinho, aproveitando o fraco solzinho do inverno inglês, que de vez em quando ainda dá as caras por aqui. Acho que, com isso, dei mais um passo em direção a construção da minha identidade de mãe, o que, certamente, contribui pra que eu me sinta mais confortável, confiante e em paz comigo mesmo nesse papel que ainda parece novo pra mim (sim, porque depois de quase oito anos exercendo essa função posso dizer que ainda não sei exatamente que tipo de mãe sou, devo ser ou quero ser). Um passo talvez ainda mais libertador do que o primeiro que considero ter dado na mesma direção, que foi o do “yes, I can”. Depois daquelas milhões de dúvidas e incertezas sobre minha capacidade como mãe, foi muito bom descobrir que eu posso. Posso cuidar, com muito amor e paciência, de um ser completamente dependente e indefeso, posso trabalhar muito o dia inteiro, a semana inteira, o mês inteiro e continuar cuidando e dando muito amor para ele, posso ficar a noite toda acordada do lado dele dando remédio, mamadeira, copo d’àgua, colinho, carinho ou a mão, posso ficar doente e continuar fazendo tudo isso, posso brincar, ensinar, educar, conversar, levar, buscar, alimentar, beijar, apertar, amassar. E agora, com o segundo passo, sei que, mesmo tendo dois serzinhos desses em casa, também posso descansar. Essa seria, então, a fase do “yes, I could”. Eu poderia estar limpando a casa/ passando a roupa/ descascando a batata pro almoço/ me atualizando sobre a situação da Síria/ lendo sobre psicologia e desenvolvimento infantil antes que ele acorde ou ela volte da escola. Sim, eu poderiiiiia. Mas hoje não vou fazer nada disso. É essa mãe que quero ser: capaz de amar muito, fazer qualquer coisa para os filhos e passar muito tempo juntinho deles, mas que, ao mesmo tempo, sabe que não estará amando menos nem sendo menos importante como mãe e como pessoa se conseguir reconhecer suas fraquezas e fazer concessões quando necessário e adequado. Sei que é tudo muito dinâmico nessa vida de mãe e as necessidades minhas e dos meus filhos muito em breve não serão mais as mesmas. Mas o importante é ir se adequando e fazendo o que manda o nosso bom senso. Agora, por exemplo, o meu bom senso diz que um soninho seria muito necessário e adequado. Noite anterior muito mal dormida, dias de muita atividade, casa mais ou menos organizada e ninguém precisando de mim. Theo, dá um espacinho aí na cama pra mamãe! E no fim, o que eu iria escrever nesse post acabou não sendo escrito. Vai ter que ficar pra amanhã (ou pra depois).
Theo brincando no solzinho depois de um soninho gostoso ao lado da mãe.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
CADA UM NO SEU RITMO
Estavam, Theo e mamãe, bem contentes no seu mundinho. Alheios ao que acontecia à sua volta. Bebês nasciam, bebês cresciam, bebês aprendiam a segurar coisas, a engatinhar, a andar, a falar. O Theo aprendia algumas coisas também e mamãe curiosa, mesmo sabendo que isso é coisa perigosa de se fazer, comparava seu progresso com as informações encontradas na internet. E se dava por satisfeita. Porque, apesar de recorrer à sabedoria de google, sabia que bebês são diferentes uns dos outros, cada um se desenvolve em um ritmo, alguns atingem certos marcos antes, outros depois e etc. e tal. Tudo muito consciente e cheio de bom senso e tolerância. Até que.... mamãe e Theo saem do seu mundinho e resolvem encarar uma aula de estimulação para bebês. O pai inscreve eles na turma de 6 a 18 meses e a mãe apoia incondicionalmente: “Imagina!!! Na turma de 0 a 6 meses só vai ter bebezinho que não sabe fazer nada. É claro que o Theo, meu filho, tem que ir pra turma dos maiores”. Chegando lá, são alertados que se trata de uma turma de crianças um pouco mais velhas e que talvez não seja adequado para o Theo, mas era preciso avaliar antes, porque cada bebê é diferente, cada um se desenvolve em um ritmo, etc e tal. A mãe, com cara de madura e bem resolvida, concorda com tudo que a moça diz, mas pensa, tomada de satisfação: “Até parece que o Theo não vai dar conta, haha. Essa mocinha não conhece meus filhos. Então ela acha que alguma vez na vida, seja no Gymboree (a tal da aula em que estávamos) ou na aula de física quântica, um deles vai ter que regredir, voltar para o nível inferior?. Faça me rir”. A mocinha ainda pergunta se ele “moves a lot”, e a mãe responde prontamente: “yessss, a lot!!!”. Juntam-se, então, às outras mães e começam a brincadeira. Itsy bitsy spider, aviãozinho, tudo muito legal. Até que todas se levantam, seguram seus bebês pelos bracinhos e botam as criaturinhas para caminhar em círculos pelo salão. Mas Theo não fica em pé. Aliás Theo se recusa até mesmo a encostar seus pezinhos no chão. Levanta suas perninhas e faz sua “caminhada” pendurado nos braços da mamãe, que finge que está tudo muito normal e continua andando arcada apesar do filho estar flutuando, sentado no ar como um pequeno buda que levita a alguns centímetros do chão. “Pois bem”, pensa a mãe, “essas crianças já são bem maiores, já devem ter mais de um ano. É por isso que elas estão assim, firminhas, parando de pé, andando”. Todos sentam e vão brincar com as bolas. Theo senta apoiado na mãe, cambaleando pra lá e pra cá e não brinca com bola nenhuma, porque caso ele tire as mãozinhas do chão ele capota. E como é muito sábio esse guri, ele fica lá, com as mãozinhas bem grudadinhas no chão, só observando a bebezada se divertindo e começa a achar a coisa já não mais tão interessante assim. Mamãe começa a achar a mesma coisa e entende que o “move” ao qual a mocinha se referia não era um simples sacudir frenético de braços e pernas e sim algo muito mais coordenado, elaborado e com objetivo definido. Do nosso lado, o Oscar, um bebê grandinho, todo fortinho, que engantinha pra lá e pra cá e vai atrás de todas as bolas, se encanta com o Theo. Só quer ficar do lado dele, passar a mão no rosto dele, pegar na mão dele. Mamãe que sabe muito bem que comparações são proibidas quando se trata de desenvolvimento infantil, porque bebês são diferentes uns dos outros, cada um se desenvolve em um ritmo, alguns atingem certos marcos antes, outros depois e etc. e tal., não resiste e resolve comparar: “Quero ver quanto tempo tem esse bebê que sabe fazer um monte de coisas. Deve ter quase um ano, com certeza”. Vira-se para a mãe de Oscar e, sorridente, comenta: “Oh, que bonitinho. Quanto tempo ele tem?”. E a reposta: “Seis meses”. Acabou o sorriso. Acabou a tolerância. Acabou a sensatez e a compreensão das diferenças, que aliás é muito mais fácil de ser praticada quando o nosso filho está por cima da carne seca. Daí pra frente Theo, que já tinha começado a desconfiar que aquilo ali não era ambiente para ele, resolve se tornar o chorão da turma. Coloca no chão ele chora, levanta ele chora, bota de barriga pra baixo ele chora, canta musiquinha ele chora. A mãe sente-se desamparada e perdida, mas não deixa que esses sentimentos ruins tomem conta dela e, imediatamente, bola um plano que a faz sentir muito melhor: nada mais de lavar louça, arrumar a casa, lavar roupa. Seus dias agora serão inteiramente dedicados a fazer do Theo um Oscar. Exercícios com bola, chocalhos, pandeiros, de barriga pra cima, de barriga pra baixo, de pé. Telefona para o marido e revela a descoberta: “o Theo é praticamente uma amebinha”, e a solução: “precisamos nos empenhar para que essa situação mude”. Vai buscar a filha mais velha na escola e recebe a notícia que ela recebeu mais um prêmio. “Competitivos são os ingleses não eu”, pensa a mãe, muito orgulhosa da filha mas lembrando o quanto repudia esse negócio de estrelinhas, pontos e eu-sou-melhor-que-você. Começa a recobrar a sanidade e, na volta pra casa, já vai desistindo de por em ação seu plano BOPE de treinamento para bebês. A noite, depois de dar a mamadeira, olha praquela coisa pequenina, careca e sorridente e fica muito feliz por ele ter apenas seis meses, por ele mal saber sentar ainda, por ele caber inteirinho no seu colo. Lembra que tudo tem seu tempo e deseja que esse tempo demore pra passar, porque depois não tem volta. Dia seguinte, vão os dois felizes para aula dos bebês de 0 a 6 meses e se divertem muito.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
O QUE EU NÃO POSSO SER QUANDO CRESCER
Dona de casa. Eu, definitivamente, não posso ser dona de casa. Essa foi mais uma das revelações que a vinda para a Inglaterra me proporcionou. Também passo a admirar mais do que nunca as que escolhem, voluntariamente, "dona de casa" como profissão e passo a idolatrar as que, escolhendo essa profissão, a executam com graça, leveza, amor e alegria. E pra isso gente, tem que ter muita vocação. Não basta você decidir que vai ser dona de casa e sair fazendo as coisas por aí. Simplesmente não vai funcionar e o resultado vai ser uma profissional frustrada, cheia de rancor e ódio em seu coração, que não consegue organizar seu dia de trabalho e, como consequência, tem rendimentos baixíssimos apesar de trabalhar sem uma pausa sequer pro cafezinho. E eu que, nos momentos que deixei de trabalhar fora para cuidar mais dos filhos e de mim mesma, me intitulava, orgulhosamente, como dona de casa. Que farsa, que embuste, que vergonha para a classe. É muito difícil admitir, mas, naqueles tempos, havia muito de madame em mim (ou seria de Madame Mim em mim?). O que eu fazia era simplesmente o que toda mãe, trabalhando fora de casa ou não, faz: ir à feira, ao mercado, farmácia, comprar uniforme, presentinho pras professoras e pros coleguinhas da filha, organizar festinhas de aniversário, levar e buscar na escola e na natação, ligar pro eletricista, encanador, pedreiro, pintor, marceneiro. É bastante coisa? Eu acho que sim. Mas eu tinha o dia inteiro pra fazer isso, enquanto as mães que têm outro trabalho rebolam pra fazer tudo isso e mais um pouco depois das seis da tarde, no intervalo do almoço ou enquanto esperam o sinal abrir. Ou seja, naquelas ocasiões, tive uma vida com muito mais qualidade e tempo pra família. E isso galera, não tem nada a ver com ser dona de casa. Aquela que tem sempre em mente o que vai ser servido no almoço e na janta e ainda tem todos os ingredientes necessários no armário, organiza, limpa, faxina, determina qual o melhor momento para varrer, passar aspirador, tirar pó, lavar roupa escura, lavar roupa clara, passar pano no chão, lavar banheiro e executa tudo isso com uma destreza impressionante. Termina tudo a tempo de jantar tranquilamente com a família, por a criançada na cama as oito da noite, escrever no blog e sentar despreocupadamente no sofá, ao lado do marido, para assistir a um filme e beber um vinhozinho. Não, essa realmente não sou eu. Eu não tenho esse talento (o que é, de fato, muito decepcionante, uma vez que aos trinta e não sei quantos anos eu ainda não sei exatamente para o que eu tenho talento). Minha roupa é incrivelmente mal passada, a minha costura é incrivelmente mal feita, minha comida… bem… que comida?, tenho dificuldades com esse negócio de separar roupas claras, escuras, que soltam pêlo, que absorvem pêlo e, volta e meia, alguma coisa dá errado, passo horas esfregando o banheiro e acabo descobrindo que usei o produto, o instrumento e a técnica errados e o negócio ficou pior do que estava, demoro anos pra executar cada tarefa e não consigo me programar, de maneira que meu almoço fica pronto, inevitavelmente, as três da tarde e as onze da noite ainda tenho uma pilha de roupas pra passar. Desastre! Esse é um emprego ao qual eu não vou me candidatar quando voltar ao Brasil. Preciso pensar em outra coisa rápido.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
SCHOOL BAG IN HAND
Após intermináveis férias, Clara vai para a escola dos ingleses (como ela diz), vestida de modo adequado para a ocasião. Porque, como bem disse uma coleguinha dela que encontramos ontem na loja de uniformes "here, you have to look smart". Ou seja, aparência é tudo. Então, "simbora" colocar uma gravata na Clara. Porque afinal, nada mais apropriado do que uma gravata para uma criança de sete anos ir à escola. Mas, enfim… inglesisses à parte, estamos muito felizes porque achamos uma escola legal e que, apesar de ser católica (yes, I know), é aberta a todas as crenças e descrenças, não tenta catequizar ninguém e é cheia de gente simpática, com propostas que nos agradam e que estão preparadas e animadas para receber uma estrangeirinha. E esse capítulo começa com uma mãe cheia de orgulho porque a filha está enfrentando esse desafio com muita coragem e determinação e com uma filha cheia de orgulho porque a mãe enfrentou o desafio de costurar o emblema da escola no blazer. E depois de tantas férias e tanto orgulho, surge uma esperança de ressuscitar o pobre do blog abandonado.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
MEDIDAS PRÁTICAS, MAS NÃO MUITO EFETIVAS
Clara resolvendo seu problema de falta de intimidade com a língua inglesa:
“Pai, se me perguntarem alguma coisa em inglês eu não souber responder você pisa no meu pé. Se você pisar uma vez, eu respondo yes. Se pisar duas vezes, eu digo no. Se pisar três vezes, eu falo I don’t speak english. Se você pisar quatro vezes, meu pé fica inchado”.
Ah! Não posso esquecer de dizer que é claro que eu estou participando do sorteio de lançamento do Minha Mãe que Disse! Estas meninas são divertidas, inteligentes, criativas e cheias de atitude. Botaram a mão na massa e criaram o ponto de encontro definitivo das mamães brasileiras, blogueiras ou não, na internet. Parabéns gurias!
sexta-feira, 22 de julho de 2011
VINTE DIAS
Vinte dias de Inglaterra e, até agora:
- já temos um apartamento (quase organizado), dois celulares e acesso (muito, mas muito ruim mesmo) à internet
- já andamos bastante pela cidade e eu já consigo saber, mais ou menos, pra que lado fica cada coisa
- já andamos algumas vezes naqueles taxis ingleses que aparecem nos filmes e achamos bem legal porque cabe a família inteira, incluindo o Theo com seu carrinho
- já andamos muitas vezes de ônibus e achamos mais legal ainda porque os bancos são confortáveis, sempre tem assento livre, também cabe a família inteira com carrinho do Theo e tudo e é mais barato que o taxi (se bem que nem tanto)
- já comemos fish and chips, shepherd’s pie, cornish pasty, chicken and mushroom pie, beef and ale pie e mais um monte de outras coisas calóricas e muito boas
- já descobri (e fiquei muito feliz com a descoberta) que aqui é o paraíso da comida pronta de boa qualidade. Tanto da comida pronta-pronta do tipo é só esquentar, como da comida quase-pronta do tipo cortadinha, temperada, fracionada, ponha tudo na panela, conte até 50 e tenha um lindo, e saboroso e fresquinho jantar. E esse jantar pode ser fajitas, estrogonofe de carne, chicken tikka masala, caranguejo, coquille st. James, salmão defumado, haddock, bacalhau, lula, peru recheado, carneiro ao molho de sei-lá-o-que, ..., ou seja, tudo o que eu jamais saberia fazer
- ainda não fiz a mão
- já olho para o lado certo quando vou atravessar a rua
- já não acho mais tão estranho os carros andando sem ninguém estar do lado do motorista
- ainda não comprei nada em benefício próprio (nenhuma roupa, sapato, maquiagem), apesar de estar tudo em promoção (talvez, em um futuro não muito distante, eu me arrependa dessa minha fase consumismo-free)
- em compensação, já gastamos bastante dinheiro comprando coisas para a casa, ou que ajudem na nossa instalação aqui
- já entendemos que nunca se deve sair de casa sem um guarda-chuva, mesmo que não haja uma única nuvem no céu e que a metereologia tenha jurado que não choveria o dia todo
- já percebi que o verão daqui é bem diferente da ideia que eu tenho sobre verões e que aquele monte de vestidos e blusas de alcinha que eu trouxe só vieram aqui a passeio
- já deu pra sentir muitas saudades da família, dos amigos, da casa, das gatas, da cidade.
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